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Domingo, Janeiro 21, 2007
INDECIFRÁVEL
Vem,
Te direi em segredo
Aonde leva esta dança.
Vê como as partículas do ar
E os grãos de areia do deserto
Giram desnorteados.
Cada átomo
Feliz ou miserável,
Gira apaixonado
Em torno do sol. (Rumi)
Isso não deixa de ser um espelho
Ou uma vã tentativa de dizer:
"Eu sou assim!"
De quantos reflexos sou feito?
De quantos fragmentos fui remendado?
Isso não deixa de ser um sonho
Ou uma vã tentativa de acordar
Quando a noite chega
E novamente o dia
Grãos de areia indo e vindo
E as dunas retidas num engarrafamento
O imenso vazio de um dia cheio
Reflexos que refletem outros reflexos
Nessa vã tentativa de ser alguém
Quem é você?
Olhei antentamente por sobre os ombros da multidão
Havia uma fissura no padrão da pista de dança
Um santuário?
Ela cavava a realidade para plantar uma semente
Ali, no meio da correnteza
Vulnerável e inatingível
Dançando entre um milhão de eus
Até que me perdi de vista
Até que descobri o que vim fazer aqui
O tesouro que procuro é uma pedra
E a força para atira-la e quebrar o espelho
E a persistência para atirar quantas pedras forem necessárias
Até que não reste mais a vertigem
Somente o abismo real
Isso não deixa de ser mais um punhado de palavras
Mas a semente está plantada
E você sabe que está além de nós
A pedra vai germinar
Em plena dança
A verdade.
Em algum lugar bem perto daqui
Os olhos fechados
Velejando escuridão adentro
Ela vira as páginas que não leio
E diz após as curvas mais arriscadas:
"Desenterre-se daquela margem"
Poente lunar no acostamento
E eu posso distinguir
Fragmentos de um outro alcance
Sua mão e o mistério sobre ela
Em que linha de suas palmas fui escrito?
Ah, eu posso distinguir
Os olhos não estão mais fechados
Talvez nunca tenham estado
Estive sempre explodindo por dentro
Para manter o acordo de não chamar a atenção
Isso já foi superado
Sem poder respirar
Sobrepondo cascas e máscaras
Sem poder nem sequer imaginar o ar
Mas isso já foi superado
A semente está protegida
Você pode perceber?
Somente ela pode alcançar
Sobre a palma dessa mão
O mistério
Posso sentir
Estou desenterrando
Saindo-me de fora refletido
Mergulhando respiração adentro
Chegando
Misteriosamente
Aqui
Avante!
Ela grita pela janela e sorri
Eu acredito
Mesmo sabendo dos truques e das dores
Eu acredito e não faço nenhuma promessa
Nada de acordos ou alianças
Não há nenhuma expectativa
E é por isso que posso agora
Escrever sem receio algum
Que essas são as palavras que eu não lia
Que esses são os olhos que não viam
Leve-me daqui
Para longe de mim
Deixe surgir
Deixe explodir
E foi assim que aconteceu
Avante! - gritava a si mesmo
Em plena onda
Por esse corredor que nada sustenta
Nenhum olhar foi lançado do porto
Havia apenas uma canção desconhecida
O que você vê ao redor?
Sacudindo a poeira da queda
A multidão tateava sua alma:
"O pré-destinado a desafiar o destino?"
"Certamente ele perderá" - (como indicam as probabilidades - n.t.)
Ainda assim
Gritava a si mesmo
Avante!
Avante!
Duplamente assim
Como se eu daqui
Estivesse aí me chamando
Exigindo dessa possibilidade
Um certo equilíbrio caótico
Como requer toda arte que dribla
Intrepidez!
Tatuou em si mesmo essa outra chave
Com ponto de exclamação e tudo?
Sim - mas veja só:
Não se surpreenda se a sua porta abrir
Contra todas as probabilidades
Contra tudo que é seguro
Contra mim mesmo??
Agora a pouco houve uma explosão
Lembra?
Existe sempre algo que fica no ar
Sem explicação
Chamam isso de anomalia
E até mesmo de milagre ou fantasia
Ah, mas nós sabemos
Nenhum nome pode abrangir uma totalidade
Mesmo assim
Gritamos duplamente
Eu e você
Avante!
Ela já deixou a janela
E eu deixei cair o mapa
Grafitando nos fragmentos do próprio pulsar
A propulsão necessária para manter a pulsação
Essa é mais uma inexplicável certeza
Conheço você de tantas maneiras
Mas uma única chave é suficiente
Pude transitar por todos os ângulos
Mas nunca houve nada parecido com isso
Essa é a chance que alguém jamais deveria perder
A porta está aberta
Agora e sempre
Posso conhecer infinitamente
Sem nenhuma expectativa
O real motivo de estar aqui
Entro sem avisar
Com palavras que nada sustentam
Mas que deixam algo no ar
É como quando o pirata menos espera
O vento infla as velas
Como bem fazem os olhos
Daquele que grita intrepidamente
Sempre a si mesmo
Avante!
E a caravela avançou através de uma navegação completamente cega
Sim, houve uma explosão
Fui restaurado com peças desconhecidas
Do começo ao fim
De um extremo ao outro
Travessia
Fluindo
Ela surge como se não lembrasse
E eu finjo que me importo e exclamo:
Vamos dançar!
Eles ficam frente a frente
Eis aqui seu olhar
Eis-me aqui bem longe de mim
Ainda não tenho um nome
Pode ser que você lembre
Pode ser que eu mesmo invente
Não importa
Essa é a outra margem?
Colisão translúcida, suave...
Não olhe para trás
Deixe a ponte queimar
Alarmes tentarão nos alcançar
Mas a semente está protegida
Não irei dormir
Não esquecerei
Veja, tenho asas e abismos
Deixe o medo ser pego sozinho
Vamos dar um passeio?
Eles ficam lado a lado
Uma folha em branco
Mapeia aquilo que você já sonhou encontrar
Essa é a margem que você quiser
Essa é a margem que você consegue alcançar
Transfusão
Estrada a perder de vista
Passo a mão sobre a terra
E a raiz desembaraça uma mensagem:
Destranca a respiração do peito
E deixe a música preencher o resto
Compreenda a chave, não a porta
Desafia o medo, não a altura
A folha permanece em branco
Mas o corredor está repleto de sons
E há todo tipo de ecos e miragens auditivas
Esqueça o alarme
É só vento lá fora
E somente você sabe o quanto
Isso bem poderia ser uma canção
Que seja então para os olhos
Com a mesma proporção do desafio
Daquele que se cala após gritar
Ecos falsos
Acorde maior
Um mundo vai tomando forma
E antes que possamos definir
Que o que se tem é um punhado de palavras
Nós podemos distinguir
Contra todas as expectativas
O silêncio
Estamos aqui agora, não estamos?
Ela mergulhou ainda mais fundo
Nevoeiro empoleirado em meu ombro esquerdo
E ainda há pouco estava ruindo?
Volte logo
Mas você sabe que não
Isso não faz diferença
Estamos aqui agora, não estamos?
Ouça bem
Isso é apenas entre quem estiver
Realmente
Singrando
Essa deve ter sido a última placa
Sentiremos saudades?
Talvez...
Já não temos mais o que levar
Pois se mesmo diante da chuva
Do véu e do trovão
Eu posso te ouvir
Avante!
A camada foi rompida com violência
As presas rasgavam a pele do horizonte
Nada de acordo!
Nada de associação!
- É interessante notar agora
Como essa indesistência agiu e tem agido como um motor de explosão - n.t.
Na noite seguinte
Após naufragar mil sonhos
Foi percebido que somente o deserto se movia
E na total falta que uma âncora poderia fazer
Foi-se decidido seguir sem ela
Mistério...
Essa é a resposta
Sobre uma questão que soava como um chamado
Não tenha medo
É o abismo que se joga em nós
É a fronteira que nos atravessa
Ela aproximou-se
Elegantemente
No meio do mais absoluto caos
- Os vizinhos, os fantasmas e as crianças estavam em guerra - n.t.
Verdades paralelas
Para um único gesto
Via livre
Para um corpo que emerge da fonte
Respiro fundo
Aprendo a ventar
A espalhar as cartas da cigana
Você pode distinguir
Tudo isso que eu faço
É apenas por estar aqui
Não é o mesmo que você tem feito?
Equilibrando-se com a arte de um malabarista
Por total falta de opção
Por total falta de âncora
No milésimo primeiro sonho
Ela acordou de meu próprio sonho
E cantou uma canção
Enquanto abria a cortina
Eu estava lá embaixo
Esperando sem saber
Como alguém que pudesse ventar
Ela gritou
Não pude entender se era o meu nome
Ou se era qualquer outra coisa
Eu apenas queria estar ali
Avante!
E na total falta de contrato
A pedra pôde viver
O espelho foi quebrado
No milésimo primeiro fragmento
Superou-se o reflexo
Horizonte a perder de vista
Entrega
Nada a perder
Nada a ganhar
E já não faço questão
Se não há mais um nome
Não existirão também
Os ciclos que ficaram lá dentro
Naufragando e clamando por...
Não importa!
Deixo minhas mãos se soltarem
E confirmo
Com essa cicatriz
Por essa tatuagem
A estrada
É o passo que me soletra
Você sempre soube
Nessas palavras que já não seguro
Que é de lá que viemos
E foi assim que ela chegou
Todo esse espaço
Toda essa possibilidade de abrir os braços
Exigindo sem pedir:
-Faça-me o suficiente para ser
o que você puder imaginar!
Apenas não olhe para trás
Apague o rastro se for preciso
Ou escreva com eles
De uma maneira que evaporem
Não olhe para trás
Sacudo os bolsos e os ombros
Torres e muralhas caem pelas curvas
Posso farejar a sublimação
E acompanha-la como um vira-lata faminto
Tão logo você acabe de estar
Tão logo eu deixe de desviar dos rochedos
Será como ela imaginou
Essa história já foi contada
Lembra como era a chave?
Queime essas palavras
E você saberá o que é
O real motivo de continuar
Ventando e Avançando
Apesar desse e de todo fim.
postado por: Sahid Azajarr às 11:23 PM
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